A HISTÓRIA DA FOTO

Histórias curiosas a respeito de algumas fotos do meu portfólio

 

 

O verbo esperar, o cãozinho e a cidade perdida no tempo

by Cintia Erdens Paiva

O verbo esperar, o cãozinho e a cidade perdida no tempo

O ano de 2002 seguia seu curso, era primavera e eu me lembro bem desta sexta-feira, dia 10 de maio. Fazia tempo que nós planejávamos a viagem pela Alta Normandia, na França, mas o céu cinzento atrasava a nossa partida. Após uma série de dias chuvosos, o sol finalmente decretou o fim da longa espera. Animados, jogamos as malas no bagageiro do carro e partimos.

Perto da hora do almoço, vimos a placa que indicava Lyons-la-Forêt. Sylvie comentou que o cineasta Claude Chabrol havia filmado Madame Bovary neste vilarejo. Isso deu início a uma competição dentro do carro, pois todos pareciam conhecer algo sobre Lyons: o compositor Maurice Ravel passou temporadas hospedado ali; há construções que datam do século XVI; a cidade escapou aos bombardeios ocorridos durante a Segunda Guerra; tem apenas 800 habitantes; é patrimônio cultural francês.

Estacionamos o carro e subimos uma ladeira íngreme que avançava em direção ao céu azul. De cada lado da rua, casas que datavam de um passado remoto brincavam com a nossa percepção do tempo. Passado? Presente? 1560? 2002? Em que época estamos vivendo, afinal?

Quando vencemos a ladeira, meus amigos aceleraram o ritmo da caminhada e se distanciaram de mim. Foi aí que notei a figura solitária atrás do vidro transparente da janela. Imóvel, emoldurado pela cortina entreaberta, focinho espremido contra o vidro, o cachorrinho olhava fixamente para a rua. Vigiava um ponto preciso na calçada, certamente esperando por um amigo querido que não tardaria a dobrar a esquina.

Uma ideia engraçada cruzou meu pensamento. Aquela cena provava a existência concreta do verbo Esperar, que é um parente próximo da Esperança. Então, fotografar o cachorrinho na janela seria fotografar o verbo Esperar em carne e osso!

Optei pelo plano fechado e fiz cinco fotos seguidas. Quando me preparava para inserir mais detalhes na imagem, o cachorrinho abandonou o seu posto e desapareceu. Olhei para a esquina, mas não havia ninguém. Por que ele teria decidido ir embora bruscamente?

Na outra extremidade da rua, François gesticulava tentando chamar a minha atenção. Ele também esperava. Aproximou-se e disse:

- Encontramos um bistrô simpático. Todos estão te esperando. Por que você parou aqui no meio do nada?

- François, você conhece a história do cachorrinho que todos os dias se posicionava diante da porta justamente no horário em que seu dono deixava o trabalho e se aproximava de casa? Pesquisadores colocaram câmeras para monitorar o comportamento do cachorrinho. Então, houve um dia em que o dono do cachorro foi liberado para sair mais cedo do trabalho. Ele pegou o casaco, dirigiu-se para a saída do escritório e, no mesmo momento, na casa dele, o cãozinho começou a se agitar. Minutos depois, ocorreu um imprevisto e o dono do cachorro foi obrigado a cumprir o horário normal de expediente. Resignado, ele pendurou o casaco no cabideiro e retornou para a sua mesa de trabalho. Neste mesmo instante, em sua casa, o cachorro se acalmou, deixou o local onde costumava aguardar a chegada do seu dono e foi tirar uma soneca.

- Não estou entendendo nada, Cíntia! O que isso tem a ver com o fato de você ter parado diante desta casa?

- Pois então! Estou querendo te dizer que houve um imprevisto e, por isso, hoje, o dono do cachorrinho não poderá vir almoçar em casa.

Com fome demais para tentar entender o que eu estava dizendo, François mudou de assunto.

- No bistrô tem crème brûlée e pain perdu, seus doces prediletos.

- Neste caso, almoçarei rápido. Não quero esperar muito pela hora da sobremesa!